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 Os Convulsionários de Saint-Médard

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VICTOR PASSOS
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MensagemAssunto: Os Convulsionários de Saint-Médard   Ter Fev 26, 2008 12:30 pm

Os Convulsionários de Saint-Médard
REVISTA ESPÍRITA

Jornal de Estudos Psicológicos Publicada sob a direção de Allan Kardec

Novembro de 1859

(Sociedade, 15 de julho de 1859.)



Notícia.



François Paris, famoso diácono de Paris, morto em 1727, com a idade de 37 anos, era filho mais velho de um conselheiro do parlamento; deveria, naturalmente, suceder ao seu cargo, mas queria muito abraçar o estado eclesiástico. Depois da morte de seu pai, abandonou os bens para o seu irmão. Durante algum tempo, fez catecismo na paróquia de Saint-Côme, se encarregou da conduta dos clérigos e lhes fez conferências. O cardeal de Noailles, a cuja causa estava ligado, quis nomeá-lo cura dessa paróquia, mas um obstáculo imprevisto a isso se opôs. O abade Paris se consagrou então ao retiro. Depois de haver tentado várias solidões, confinou-se numa casa do bairro Saint-Marcel; ali se entregou, sem reservas, à prece , às práticas mais rigorosa da penitência, e ao trabalho manual: fazia meias por ofício para os pobres, que considerava seus irmãos; morreu nesse asilo. O abade Paris aderira ao apelo da bula Unigenitus, interposta pelos quatro bispos; renovara seu apelo em 1720. Assim, deveu ser pintado diversamente pelos partidos opostos. Antes de fazer meias, havia produzido livros bastante medíocres. Tem-se dele explicações sobre a epístola de São Paulo aos Romanos, sobre a dos Gaiatas, uma análise sobre a epístola aos Hebreus, que poucas pessoas lêem. Seu irmão, mandando erigir-lhe um túmulo no pequeno cemitério de Saint-Médard, os pobres que o piedoso diácono havia socorrido, alguns ricos que edificara, várias mulheres que havia instruído, ali iam fazer suas preces; houve curas que pareceram maravilhosas, convulsões que foram consideradas perigosas e ridículas. A corte foi, enfim, obrigada a fazer cessar esse espetáculo, ordenando o fechamento do cemitério, em 27 de janeiro de 1752. Então os mesmos entusiastas foram fazer suas convulsões nas casas particulares. O túmulo do diácono Paris foi, no espírito de muita gente, o túmulo do jansenismo; mas algumas outras pessoas aí acreditaram ver o dedo de Deus, e não foram senão mais ligadas a um partido que produzia tais maravilhas. Há diferentes práticas na vida desse diácono, das quais talvez jamais se falasse, se não se quisesse dele fazer um taumaturgo.



Entre os fenômenos estranhos que os Convulsionários de Saint-Médard apresentavam, citam-se;



A faculdade de resistir a golpes tão terríveis, que parecia que seus corpos deveriam ser esmagados;



A de falar línguas ignoradas ou esquecidas por eles; Um deslocamento extraordinário da inteligência; os mais ignorantes entre eles, improvisavam discursos sobre as graças, os males da Igreja, o fim do mundo, etc.



A faculdade de ler no pensamento;



Colocados em relação com os doentes, sentiam as dores nos mesmos lugares que aqueles que os consultavam; nada era mais freqüente que ouvi-los predizer, eles mesmos, os diferentes fenômenos anormais que deveriam sobrevir no curso de suas doenças.



A insensibilidade física, produzida pelo êxtase, deu lugar a cenas atrozes. A loucura chegou até a crucificar verdadeiramente infelizes vítimas, fazendo-as sofrer, em todos os seus detalhes, a Paixão do Cristo, e essas vítimas, o fato é atestado pelos testemunhos mais autênticos, solicitavam as terríveis torturas designadas entre os Convulsionários pelo nome de grande socorro.



A cura das doenças se operava seja pelo simples toque da pedra tumular, seja pela poeira que se encontrava ao redor, e que se tomava em certas bebidas, ou que se aplicava sobre as úlceras. Essas curas, que foram muito numerosas, são atestadas por mil testemunhas, e várias dessas testemunhas, homens de ciência, incrédulos no fundo, registraram o fato sem saberem a que atribuí-los.



(PAULINE ROLAND.)





1. Evocação do diácono Paris.

- R. Estou às ordens.



2. Qual é o vosso estado atual como Espírito?

- R. Errante e feliz.



3. Tivestes outras existências corporais depois daquela que conhecemos?

- R. Não; estou constantemente ocupado em fazer o bem aos homens.



4. Qual foi a causa dos fenômenos estranhos que se passaram entre os visitantes de vosso túmulo?

- R. Intriga e magnetismo.



Nota. Entre as faculdades das quais eram dotados os Convulsionários, encontram-se sem dificuldade as quais o sonambulismo e o magnetismo oferecem numerosos exemplos; tais são entre outras: a insensibilidade física, o conhecimento do pensamento, a transmissão simpática das dores, etc. Não se pode, pois, duvidar que esses crisíacos não estivessem numa espécie de sonambulismo desperto, provocado pela influência que exerciam uns sobre os outros, com o seu desconhecimento. Eram ao mesmo tempo magnetizadores e magnetizados.

5. Por qual causa toda uma população foi dotada, subitamente, dessas faculdades estranhas?

- R. Elas se comunicam muito facilmente em certos casos, e não sois bastante estranhos às faculdades dos Espíritos para não compreenderem que nisso tomaram uma grande parte, por simpatia por aqueles que os provocavam.



6. E tomastes, como Espírito, um parte direta?

- R. Não a menor.



7. Outros Espíritos nisso concorreram?

- R. Muitos.



8. De que natureza eram em geral?

- R. Pouco elevados.



9. Por que essas curas e esses fenômenos cessaram quando a autoridade a eles se opuseram, fazendo fechar o cemitério? A autoridade tinha, pois, mais força que os Espíritos?

- R. Deus quis fazer cessar a coisa, porque degenerou em abuso e em escândalo; era-lhe necessário um meio, e empregou a autoridade dos homens.



10. Uma vez que não estivestes participando nada dessas curas, por que escolheram-se antes o vosso túmulo que o de um outro?

- R. Credes que se me consultou? Escolheu-se o meu túmulo por cálculo: minhas opiniões religiosas primeiro, e o pouco de bem que procurei fazer, foram explorados.





dezembro de 1859

--------------


(Continuação - Ver edição de novembro)



1. (A São Vicente de Paulo). Na última sessão evocamos o diácono Paris, que consentiu vir; desejávamos ter a vossa apreciação pessoal sobre ele, como Espírito.

- R. É um Espírito cheio de boas intenções, mas mais elevado em moral que de outro modo.



2. É verdadeiramente estranho, como ele o disse, a aquilo que se fazia junto de seu túmulo? -

R. Completamente.



3. Consentis em nos dizer como considerais o que se passou entre os Convulsionários; isso era um bem ou um mal?

- R. Era um mal antes que um bem; e fácil de se dar conta disso pela impressão geral que esses fatos produziram sobre os contemporâneos esclarecidos e sobre seus sucessores.



4. A esta pergunta dirigida a Paris, a saber "Se a autoridade tivera mais poder que os Espíritos, uma vez que ela pôs termo a esses prodígios," sua resposta não nos pareceu satisfatória; que pensais disto?

- R. Ele deu uma resposta mais ou menos verdadeira; esses fatos sendo produzidos por Espíritos poucos elevados, a autoridade colocou-lhes um fim, interditando aos seus promotores a continuação de suas espécies de saturnais.



5. Entre os Convulsionários havia os que se submetiam a torturas atrozes; qual era o resultado disto depois da morte?

- R. Quase nulo; não havia nenhum mérito em atos sem resultado útil.



6. Aqueles que sofriam essas torturas pareciam insensíveis à dor; havia neles simples resignação, ou insensibilidade real?

- R. Insensibilidade completa



7. Qual era a causa desta insensibilidade?

- R. Efeito magnético.



8. É que a superexcitação moral, chegada a um certo grau, podia aniquilar neles a sensibilidade física?

- R. Isto contribuiu para alguns dentre eles, e os dispunha a sofrerem a comunicação de um estado provocado artificialmente em outros, porque o charlatanismo desempenha um grande papel nesses fatos estranhos.



9. Uma vez que estes Espíritos operavam curas, era dar serviço, e, então, como poderiam ser de uma ordem inferior?

- R. Não vedes isto todos os dias? Não recebeis, algumas vezes, conselhos excelentes e úteis ensinamentos de certos Espíritos pouco elevados, levianos mesmo? Não podem eles procurar fazer alguma coisa de bem como resultado definitivo, tendo em vista um melhoramento moral?



10. Nós vos agradecemos as explicações que consentistes em nos dar.

- R. Ao vosso dispor.
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