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 A Nota aos Prolegômenos de O Livro dos Espíritos

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VICTOR PASSOS
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MensagemAssunto: A Nota aos Prolegômenos de O Livro dos Espíritos   Seg Mar 10, 2008 9:13 am

A Nota aos Prolegômenos de O Livro dos Espíritos

Silvio Seno Chibeni

Neste artigo analisaremos “Nota” aos Prolegômenos da segunda edição francesa de Le Livre des Esprits (ver resenha em Mundo Espírita, ... de ..., pp. ...). Tal nota foi depois retirada, aparentemente sem justificação explícita, a partir da 10a edição, de 1863. A análise será feita em confronto com a nota semelhante que existia na primeira edição, de 1857.
Forneceremos, inicialmente, as traduções dos textos das duas versões da nota, reproduzindo no final do artigo os originais franceses, para conferência.
[1a edição]
Nota. – Os princípios contidos neste livro resultam, seja das respostas dadas pelos espíritos às questões diretas que lhes foram propostas, seja das instruções que espontaneamente deram acerca dos assuntos que ele abrange. O material foi organizado de maneira a formar um conjunto regular e metódico, e só foi entregue ao público depois de ter sido cuidadosamente revisto várias vezes, e corrigido pelos próprios espíritos.
A primeira coluna contém as questões propostas, seguidas das respostas textuais. A segunda encerra o enunciado da doutrina em forma corrida. São, na verdade, duas redações, em formas diferentes, acerca de um mesmo assunto: uma tem a vantagem de apresentar como que a fisionomia dos diálogos com os espíritos; a outra, a de permitir uma leitura seguida.
Se bem que o assunto tratado em cada coluna seja o mesmo, freqüentemente elas encerram, tanto uma como a outra, pensamentos especiais que, quando não são o resultado de questões diretas, nem por isso deixam de ser o fruto das instruções dadas pelos espíritos, pois nenhum pensamento há no livro que não seja a expressão do deles.
[2a edição]
Nota. – Os princípios contidos neste livro resultam, seja das respostas dadas pelos Espíritos às questões diretas que lhes foram propostas em diversas ocasiões e por meio de um grande número de médiuns, seja das instruções que espontaneamente deram a nós ou a outras pessoas, acerca dos assuntos que ele abrange. O material foi organizado de maneira a formar um conjunto regular e metódico, e só foi entregue ao público depois de ter sido cuidadosamente revisto várias vezes, e corrigido pelos próprios Espíritos. Também esta segunda edição foi objeto de novo e minucioso exame da parte deles.
O que vem entre aspas, após as questões, são as respostas textuais dadas pelos Espíritos. O que está em caracteres menores, ou de outro modo destacado, consiste das observações ou desdobramentos acrescentados pelo Autor, que passaram igualmente pelo controle dos Espíritos.
Observemos, inicialmente, o detalhe da grafia da palavra ‘espírito’: na segunda edição passou a ser com inicial maiúscula. Na língua francesa o uso de iniciais maiúsculas é mais restrito do que em português, e no presente caso não se justificaria senão pela intenção de Kardec de diferençar as “individualidades dos seres extracorpóreos” – Espíritos – do “elemento inteligente universal” – espírito –, conforme adverte explicitamente a nota após o item 76 da segunda edição. Essa importante distinção, não assinalada na primeira edição, é rigorosamente marcada por esse recurso ao longo de toda a edição de 1860. Temos aqui um belo exemplo da preocupação de Kardec com as nuances de pensamento e sua correta expressão escrita.
Outro ponto diz respeito à forma de apresentação do texto. Por interessantes que fossem as razões apontadas por Kardec na nota de 1857 para apresentar o assunto em dois formatos, diálogo e texto corrido, avaliou depois que seriam secundárias, relativamente a outras, entre as quais certamente se incluem a uniformização e a concisão. Na primeira edição a exposição dupla era usada unicamente na primeira das três partes que formavam o livro. Ademais, é evidente que esse formato duplica a extensão total do texto; se fosse seguido em todo o livro, e ainda mais com as grandes complementações da segunda edição, resultaria em um volume de dimensões impraticáveis. Prevaleceu aqui o senso estético e prático de Kardec, tão evidente na composição de suas obras.
Uma terceira observação refere-se ao cuidado que Kardec teve de submeter o texto, em suas duas edições, a acuradas verificações pelos Espíritos. Não que isso indicasse qualquer limitação de sua imensa capacidade analítica e independência intelectual; mas, dado que a obra explora um território quase que inteiramente novo, eram-lhe indispensáveis as informações colhidas dos Espíritos – testemunhas e participantes diretos da realidade espiritual, cuja investigação constitui o cerne da nova disciplina. Fazia-se, pois, mister, não assimilar relatos que se baseassem em observações parciais, sendo por isso que o controle amplo das informações se mostrou indispensável.
A referência explícita, na nota da segunda edição – que, lembramos, deixou de ser impressa a partir da 10a edição –, a esse controle mostra quão infundada é a posição de Canuto Abreu, expressa na introdução de sua edição bilíngüe da primeira edição do Livro dos Espíritos, de desqualificação relativa da segunda edição, por conta de um suposto menor controle por parte dos Espíritos. (Para um exame crítico mais extenso dessa posição, veja-se a obra Allan Kardec, de Francisco Thiesen e Zêus Wantuil, vol. 2, cap. 1, seção 11.)
A comparação das duas versões da Nota revela outros aspectos importantes – talvez mais importantes ainda – relativos à elaboração do livro e, em particular, ao papel desempenhado por Kardec. Vemos que os dois primeiros períodos dos primeiros parágrafos das notas correspondem-se quase que integralmente: a diferença está no acréscimo, no meio do primeiro período, da frase “em diversas ocasiões e por meio de um grande número de médiuns”, e depois “a nós ou a outras pessoas”. Deve-se comparar essas afirmações gerais com a descrição específica, feita por Kardec em outros lugares, do modo de elaboração do texto de O Livro dos Espíritos. No primeiro número da Revue Spirite (janeiro de 1858) há uma matéria sobre o livro. Após advertir que, por sua lentidão, a tiptologia nunca foi por ele empregada nos trabalhos referentes ao livro, Kardec diz: “tudo foi obtido pela escrita e por intermédio de vários (plusieurs) médiuns psicógrafos. Nós mesmos preparamos as questões e organizamos o conjunto da obra; as respostas são textualmente as que foram dadas pelos Espíritos; a maior parte foi escrita sob nossos olhos. Outras foram extraídas de comunicações enviadas por correspondentes, ou que coletamos onde quer que tenhamos tido a ocasião de realizar estudos”. No parágrafo seguinte Kardec acrescenta: “Os primeiros médiuns que ajudaram em nosso trabalho foram as senhoritas B*** [Baudin], cuja boa vontade jamais faltou: o livro foi escrito quase que inteiramente por meio delas...” (os itálicos são nossos).
Na seção inicial da segunda parte de Obras Póstumas, Kardec comenta que quando o trabalho alcançou as dimensões de um livro pensou em “submetê-lo ao exame de outros Espíritos, com o auxílio de diferentes médiuns”. No entanto, ao começar a fazer isso, levando os pontos às reuniões do senhor Roustan, nas quais atuava a médium sonâmbula senhorita Japhet, os próprios Espíritos disseram que preferiam empreender a delicada revisão em seções privativas com a médium, isto é, sem assistência. No referido artigo da Revue, Kardec afirma, a propósito da revisão, que “essa parte essencial do trabalho foi feita com o concurso da senhorita Japhet”, ressaltando sua nobreza de caráter e infatigável dedicação à tarefa.
Aquela seção de Obras Póstumas contém ainda outras informações relevantes para o assunto de que estamos tratando. Uma delas é que as senhoritas Baudin se casaram já no final de 1857 e que, em conseqüência, as reuniões na casa do senhor Baudin cessaram. Mais importante do que isso é o que lemos um pouco antes: “Não me contentei, entretanto, com essa verificação [pela senhorita Japhet]; os Espíritos assim mo haviam recomendado. Tendo-me as circunstâncias posto em relação com outros médiuns, sempre que se apresentava a ocasião eu a aproveitava para propor algumas das questões que me pareciam as mais espinhosas. Foi assim que mais de dez médiuns prestaram concurso a esse trabalho. Da comparação e da fusão de todas as respostas, coordenadas [coordonnées], classificadas e muitas vezes remodeladas [remaniées] no silêncio da meditação, foi que elaborei a primeira edição de O Livro dos Espíritos...” (os destaques são nossos).
Todas essas passagens, bem como os textos integrais dos quais foram extraídas, ressaltam, primeiro, que o Livro dos Espíritos não surgiu, como às vezes ingenuamente se assume, de uma grande massa de respostas vindas de inumeráveis pontos. Embora, como Kardec assinala, ele tenha aproveitado algumas comunicações que lhe foram enviadas, o grosso do livro, em sua primeira edição, foi fruto de um trabalho sistemático concebido por ele e desenvolvido com a ajuda mediúnica das duas irmãs Baudin, e depois da senhorita Japhet, para a revisão. Somente quanto a alguns pontos mais delicados é que julgou prudente conferir as opiniões com o auxílio de outros poucos médiuns.
Afora as declarações específicas de Kardec, as circunstâncias históricas também indicam a necessidade de não se tomar à letra a frase da Nota aos Prolegômenos da segunda edição que motivou estes comentários. Por mais extensas que se tenham tornado as relações de Kardec, como resultado da publicação de seus livros e, especialmente, da Revue, está claro que na curta fase de elaboração do Livro dos Espíritos, em sua primeira e, talvez, segunda edição, simplesmente não havia uma extensa rede de colaboradores, e muito menos de colaboradores perfeitamente sintonizados com um projeto de tal complexidade.
Em segundo lugar, as citações que fizemos mostram que é igualmente ingênuo assumir que a contribuição pessoal de Kardec se limitou a compilar a suposta massa de respostas, organizando-a em forma de livro. A denominação comum de ‘codificador’ parece embutir, ou ao menos favorecer essa interpretação insustentável; deveria, pois, ser evitada (e não só por tal motivo). O estudo atento das declarações de Kardec sobre seu papel e, sobretudo, a reflexão madura sobre o conjunto de sua produção, não deixa dúvida quanto à centralidade de sua contribuição no estabelecimento das bases do Espiritismo. Ela não se limitou nem mesmo à reescrita de parte das respostas, a que ele explicitamente alude, e que se torna evidente pelo confronto do material da Revue com o texto da segunda edição. A concepção e condução de todo o programa de pesquisa espírita, em seus múltiplos desdobramentos, bem como a lucidez e precisão superiores de seus próprios textos, indicam de forma inconteste que Kardec não foi mero auxiliar dos Espíritos – exceção feita, é claro, ao Cristo, coordenador geral dos destinos da humanidade terrena –, mas, ao contrário, estes é que eram seus auxiliares; eles mesmos, aliás, reconheceram esse papel em diversas ocasiões. Justifica-se, pois, a asserção de Francisco Thiesen, de que Kardec foi o “co-autor” do Livro dos Espíritos (Allan Kardec, vol. 2, p. 85); mas talvez possamos mesmo ir um pouco além disso. (Sobre a envergadura da contribuição de Kardec, ver nosso artigo “Por que Allan Kardec?”, citado na lista de referências, no final.)
Diante disso tudo, não parece inteiramente improvável que a nota aos Prolegômenos tenha sido mais tarde retirada não por mero lapso editorial, mas por potencialmente favorecer interpretações incorretas. Ademais, o que ela tem de essencial já é dito em termos adequados nos próprios Prolegômenos e na nota de rodapé do item 1 do próprio livro.
Apêndice: Originais franceses das notas.
[1a ed.] Nota. – Les principes contenus dans ce livre résultent, soi des réponses faites par les esprits aux questions directes qui leur ont été proposées, soi des instructions données par eux spontanément sur les matières qu’il renferme. Le tout a été coordonné de manière à présenter un ensemble régulier et méthodique, et n’a été livré à la publicité qu’après avoir été soigneusement revu à plusieurs reprises et corrigé par les esprits eux-mêmes.
La première colonne contient les questions proposées suivies des réponses textuelles. La seconde renferme l’énoncé de la doctrine sous une forme courante. Ce sont à proprement parler deux rédactions sur un même sujet sous deux formes differentes: l’une a l’avantage de présenter en quelque sorte la physionomie des entretiens spirites, l’autre de permetre une lecture suivie.
Bien que le sujet traité dans chaque colonne soit le même, elles renferment souvent l’une et l’autre des pensées spécialles qui, lorsqu’elles ne sont pas le résultat de questions directes, n’en sont pas moins le produit des instructions données par les esprits, car il n’en est aucune qui ne soit l’expression de leur pensée.
[2a ed.] Nota. – Les principes contenus dans ce livre résultent, soi des réponses faites par les Esprits aux questions directes qui leur ont été proposées à diverses époques et par l’entremise d’un grand nombre de médiums, soi des instructions données par eux spontanément à nous ou à d’autres personnes sur les matières qu’il renferme. Le tout a été coordonné de manière à présenter un ensemble régulier et méthodique, et n’a été livré à la publicité qu’après avoir été soigneusement revu à plusieurs reprises et corrigé par les Esprits eux-mêmes. Cette seconde édition a pareillement été de leur part l’objet d’un nouvel et minutieux examen.
Ce qui est entre guillemets à la suite des questions est la réponse textuelle donnée par les Esprits. Ce qui est marqué par un autre caractère, ou désigné d’une manière spéciale à cet effet, comprend les remarques ou developpments ajoutés par l’auteur, et qui ont également subi le contrôle des Esprits.
Referências:



  • CHIBENI, S. S. “Por que Allan Kardec?” Reformador, abril 1986, p. 102-3. (Também disponível no site do Grupo de Estudos Espíritas da Unicamp: http://www.geocities.com/Athens/Academy/8482 .)
  • KARDEC, A. Le Livre des Esprits.Reprodução fotomecânica da 2a ed. francesa, com adendos do Autor. 1a. ed., Rio, Federação Espírita Brasileira, 1998.
  • ––––. Le Livre des Esprits. Reprodução fotomecânica da 1a ed. francesa. 1a ed, bilíngüe, trad. e ed. Canuto Abreu. São Paulo, Companhia Editora Ismael, 1957.
  • ––––. Revue Spirite. Texto eletrônico, Centre d'Études Spirites Léon Denis: http://perso.wanadoo.fr/charles.kempf/
  • ––––. Oeuvres Posthumes. (Ed. André Dumas.) Paris, Dervy-Livres, 1978. Também na edição original de Leymarie, em texto eletrônico, Centre d'Études Spirites Léon Denis: http://perso.wanadoo.fr/charles.kempf/
  • ––––. Obras Póstumas. Trad. Guillon Ribeiro. 18a ed., Rio, Federação Espírita Brasileira, 1944.
  • WANTUIL, Z. & THIESEN, F. Allan Kardec, 3 vols. 1a ed., Rio, Federação Espírita Brasileira, 1979/80.
(Texto publicado em Mundo Espírita, julho/2002, pp. 6-7.)
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