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 Formação da Terra

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VICTOR PASSOS
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MensagemAssunto: Formação da Terra   Ter Fev 26, 2008 12:51 pm

Formação da Terra

Teoria da incrustação planetária


REVISTA ESPÍRITA
Jornal de Estudos Psicológicos
publicada sobre a direção de Allan Kardec



1858 – 2008

abril de 1860





Nosso sábio confrade, o senhor Jobard, de Bruxelas, escreveu-nos o que se segue, a propósito do nosso artigo sobre os Pré-adamitas, publicado na Revista do mês último:

"Permiti-me algumas reflexões sobre a criação do mundo, com o objetivo de reabilitar a Bíblia aos vossos olhos e aos olhos dos livres pensadores. Deus criou o mundo em seis dias, 4000 anos antes da era cristã; eis o que os geólogos contestam pelo estudo dos fósseis e dos milhares de caracteres incontestáveis de longa idade que fazem remontar a origem da Terra, a milhares de milhões de anos, e todavia as Escrituras disseram a verdade, e os geólogos também, e é um simples camponês que os põe de acordo ensinando-nos que nossa Terra não é senão um planeta incrustativo muito moderno, composto de materiais muito velhos.



"Depois da retirada do planeta desconhecido, chegada à maturidade onde, em harmonia com aquele que existia no lugar que ocupamos hoje, a alma da Terra recebeu a ordem de reunir seus satélites para formar nosso globo atual, segundo as regras do progresso em tudo e por tudo. Quatro desses astros somente, consentiram na associação que lhes era proposta; só a Lua persistia em sua autonomia, porque os globos têm também o seu livre arbítrio. Para proceder a essa fusão, a alma da Terra dirigiu para os satélites um raio magnético atrativo que cataleptizou todo o mobiliário vegetal, animal e hominal que eles carregavam para a comunidade. A operação não teve por testemunhas senão a alma da Terra e os grandes mensageiros celestes que a ajudaram nessa grande obra, abrindo seus globos para colocar suas entranhas em comum. Operada a soldadura, as águas escorreram nos vazios deixados pela ausência da Lua, a qual tinha direito de esperar uma melhor apreciação de seus interesses.



"As atmosferas se confundiram, e o despertar, ou a ressurreição dos gérmens cataleptizados começou; o homem foi tirado, em último lugar, do seu estado de hipnotismo, e se viu cercado da vegetação luxuriante do paraíso terrestre e de animais que pastavam em paz ao seu redor. Tudo isso, nisso convireis, poderia fazer-se em seis dias com trabalhadores tão poderosos como aqueles que Deus havia encarregado dessa tarefa. O planeta Ásia trouxe-nos a raça amarela, a mais antiga civilizada, o África, a raça negra, o Europa, a raça branca e o América, a raça vermelha. Sem dúvida, a Lua nos trouxe a raça verde ou azul.



"Assim, certos animais dos quais não se encontram senão os restos, jamais teriam vivido na nossa Terra atual, mas foram transportados de outros mundos deslocados pela velhice. Os fósseis que se encontram nos climas onde não poderiam existir neste mundo, sem dúvida, viviam em zonas diferentes nos globos onde nasceram. Tais restos se encontram nos nossos pólos, que viviam no Equador deles. E depois, essas enormes massas das quais não podemos imaginar a possibilidade de existência no ar, viviam no fundo dos mares, sob a pressão de um meio que lhes tornava a locomoção fácil. Os futuros levantamento dos mares nos trouxeram muitos outros restos, muitos outros germens, que se despertaram da longa letargia para nos mostrarem espécies desconhecidas de plantas, de animais e de autóctones, contemporâneos do dilúvio, e estareis muito espantado por descobrir no meio do vasto Oceano ilhas novas povoadas de plantas e animais que não podem vir de nenhuma parte, nem pelo transporte dos ventos, nem pelo das ondas.



"Nossa ciência, que acha a Bíblia em falta, acabará por restituir-lhe a estima, como foi forçada a fazê-lo com respeito à rotação da Terra, porque não é falta da Bíblia, é falta daqueles que não a compreendem. Eis uma prova disso:



"Josué deteve o Sol dizendo-lhe: Sta, sol! Ora, desde esse tempo, ele está parado, porque não encontrais em nenhuma parte que se lhe ordenasse andar de novo, e se, desde vencidos os Amalecitas a noite sucede, ainda, ao dia, é bem preciso que a Terra gire. Portanto, não é Galileu, mas os inquisidores que merecem ser censurados por não terem tomado a Bíblia ao pé da letra.



"Negou-se também a existência do licorne bíblico, e acabam de matar dois nas montanhas do Tibet. Negou-se a aparição do espectro de Saul, e, obrigado, Deus! Sois capaz de convencer os negadores. Recordemos sempre esta advertência das Escrituras: Noli esse incredulu sicut equus et mulus, quibus non est intellectus.



"Saudações cordiais e respeitosas ao autor da Etnografia do mundo Espírita.



JOBARD."

A teoria da formação da Terra pela incrustação de vários corpos planetários já foi dada em diversas épocas, por certos Espíritos, e por intermédio de médiuns estranhos uns aos outros. Não nos fazemos o apóstolo desta doutrina, que confessamos não ter ainda estudado suficientemente para nos pronunciar, mas reconhecemos que ela merece um sério exame. As reflexões que nos sugerem não são, pois, senão no estado de hipótese, até que dados mais positivos venham confirmá-las ou desmenti-las; enquanto se espera, é um ponto de partida que pode colocar no caminho de uma grande descoberta e guiar nas pesquisas e talvez um dia os sábios aí encontrarão a solução de mais de um problema.



Mas, dirão certos críticos, não tende, pois, confiança nos Espíritos, uma vez que duvidais de suas afirmações? Como inteligências libertas da matéria não podem levantar todas as dúvidas da ciência, lançar luz onde reina a obscuridade?



continua
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VICTOR PASSOS
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MensagemAssunto: Teoria da incrustação   Ter Fev 26, 2008 12:53 pm

continuação


Esta uma questão muito grave, que se prende à própria base do Espiritismo, e que não poderíamos resolver neste momento, sem repetir o já dissemos a esse respeito; não diremos, senão algumas palavras para justificar as nossas reservas. Responder-lhes-emos, de início, que se tornaria sábio a bom preço se não se tratasse senão de interrogar os Espíritos para conhecer-se tudo o que se ignora. Deus quer que adquiramos a ciência pelo trabalho, e não encarregou os Espíritos de nos trazer tudo pronto para favorecer a nossa preguiça. Em segundo lugar, a Humanidade, como os indivíduos, tem sua infância, sua adolescência, sua juventude e sua virilidade. Os Espíritos, encarregados por Deus de instruírem os homens, devem, pois, proporcionar seu ensinamento para o desenvolvimento da inteligência; nunca dirão tudo a todo mundo, e esperam, antes de semear, que a Terra esteja pronta para receber a semente, para fazê-la frutificar. Eis porque certas verdades, que nos são ensinadas hoje não o foram aos nossos pais que, eles também, interrogavam os Espíritos; eis porque, verdades pelas quais não estamos maduros, não serão ensinadas senão àqueles que virão depois de nós. Nosso erro é crer-nos chegados ao topo da escala, ao passo que não estamos ainda senão na metade do caminho.



Dizemos de passagem que os Espíritos têm duas maneiras para instruírem os homens; podem fazê-lo, seja comunicando-se diretamente com eles, o que fizeram em todos os tempos assim como o provam todas às histórias sagradas e profanas, seja encarnando-se entre eles para aí cumprir missões de progresso. Tais são esses homens de bem e de gênio que aparecem, de tempos em tempos, como luz para a Humanidade e lhe fazem dar alguns passos à frente. Vede o que ocorre quando esses mesmos homens vêm antes do tempo propício para as idéias que devem propagar: são desconhecidos quando vivos, mas o seu ensinamento não se perde; depositado nos arquivos do mundo, como um grão precioso colocado em reserva, um belo dia sai do pó, no momento em que pode dar seus frutos.



Desde então, compreende-se que se o tempo requerido para difundir certas idéias não chegou, interrogar-se-ia os Espíritos em vão, eles não podem dizer senão o que lhes é permitido. Mas é uma outra razão que compreendem perfeitamente todos aqueles que têm alguma experiência do mundo Espírita.



Não basta ser Espírito para possuir a ciência universal, de outro modo a morte nos tornaria quase ou iguais a Deus. O simples bom senso, de resto, recusa-se a admitir que o Espírito de um selvagem, de um ignorante ou de um mau, desde o momento que esteja livre da matéria, esteja no nível de sábio ou do homem de bem; isso não seria racional. Há, pois, Espíritos avançados, e outros mais ou menos atrasados que devem percorrer mais de uma etapa, passar por numerosos e severos exames, antes de estarem despojados de todas as suas imperfeições. Isso resulta que se encontram, no mundo dos Espíritos, todas as variedades morais e intelectuais que se encontram entre os homens, e muitas outras ainda; ora, a experiência prova que os maus se comunicam tão bem quanto os bons. Aqueles que são francamente maus são facilmente reconhecíveis; mas há também, entre eles, os meio sábios, os falsos sábios, os presunçosos, os sistemáticos e mesmo os hipócritas; aqueles são os mais perigosos porque afetam uma aparência de seriedade, de sabedoria e de ciência, a favor da qual debitam, freqüentemente, no meio de algumas verdades, de algumas boas máximas, as coisas mais absurdas; e para melhor enganarem, não temem em se ornarem com os nomes mais respeitáveis. Distinguir o verdadeiro do falso, descobrir a fraude escondida sob uma parada de grandes palavras, desmascarar os impostores, eis aí, sem contradita, uma das maiores dificuldades da ciência Espírita. Para superá-la é preciso uma longa experiência, conhecer todas as astúcias das quais são capazes os Espíritos de baixo estágio, ter muita prudência, ver as coisas com o mais imperturbável sangue frio, e se guardar, sobretudo, contra o entusiasmo que cega. Com habilidade e um pouco de tato chega-se facilmente a ver a ponta da orelha, mesmo sob a ênfase da mais pretensiosa linguagem. Mas infeliz o médium que se crê infalível, que se ilude sobre as comunicações que recebe: o Espírito que o domina pode fasciná-lo ao ponto de fazê-lo achar sublime o que, freqüentemente, é simples absurdo e salta aos olhos de todos quanto dele mesmo.



Voltemos ao nosso assunto. A teoria da formação da Terra por incrustação não é a única que foi dada pelos Espíritos. Na qual crer? Isso nos prova que fora da moral, que não pode haver duas interpretações, não é necessário aceitar as teorias científicas dos Espíritos senão com a maior reserva, porque, ainda uma vez, eles não estão encarregados de nos trazer a ciência toda pronta; que estão longe de tudo saberem, sobretudo no que concerne ao princípio das coisas; que é necessário, enfim, desconfiar das idéias sistemáticas que alguns, dentre eles, procuram fazer prevalecer, e às quais não têm escrúpulo de darem uma origem divina. Examinando-se essas comunicações com sangue frio, sobretudo sem prevenção, pesando-se maduramente todas as palavras, descobrem-se facilmente os traços de uma origem suspeita, incompatível com o caráter do Espírito que supostamente fala. Algumas vezes, são heresias científicas de tal modo patentes que seria preciso ser cego, ou bem ignorante, para não percebê-las, ora, como supor que um Espírito superior cometa semelhantes absurdos? Outras vezes são expressões triviais, de formas ridículas, pueris, e mil outros sinais que traem a inferioridade para quem não esteja vacinado. Que homem de bom senso poderia crer que uma doutrina que contradissesse os dados mais positivos da ciência pudesse emanar de um Espírito sábio, e ainda mesmo que ele trouxesse o nome de Arago? Como crer na bondade de um Espírito que desse conselhos contrários à caridade e à benevolência, ainda que fossem assinados com o nome de um apóstolo da beneficência? Dizemos mais, que há profanação em misturar nomes veneráveis às comunicações que trazem traços evidentes de inferioridade. Quanto mais os nomes sejam elevados, mais é necessário acolhê-los com circunspecção, e temer ser o joguete de uma mistificação. Em resumo, o grande critério do ensinamento dado pelos Espíritos é a lógica. Deus deu-nos o juízo e a razão para deles nos servirmos; os bons Espíritos no-lo recomendam, e nisso dão uma prova de sua superioridade; os outros disso se guardam muito bem: querem ser acreditados sob palavra, pois bem sabem que têm tudo a perder com o exame.



Temos, pois, como se vê, muitos motivos para não aceitarmos, levianamente, todas as teorias dadas pelos Espíritos. Quando uma nos surge, nos limitamos ao papel de observador; fazemos abstração de sua origem espírita, sem nos deslumbrarmos pela imponência de nomes pomposos; nós a examinamos como se ela emanasse de um simples mortal, e vemos se é racional, se dá conta de tudo, se resolve todas as dificuldades. Foi assim que procedemos com a doutrina da reencarnação que não adotamos, embora vinda dos Espíritos, senão depois de reconhecer que só ela, mas só ela, podia resolver o que nenhuma filosofia ainda não resolvera, e isso abstração feita das provas materiais que dela são dadas, cada dia, a nós e a muitos outros. Pouco nos importa, pois, os contraditores, fossem eles mesmo Espíritos; desde que ela é lógica, conforme a justiça de Deus; que eles não podem substituí-la por algo mais satisfatório, não nos inquietamos mais com eles do que com aqueles que afirmam que a Terra não gira ao redor do Sol. - porque há Espíritos dessa força e que se dão por sábios - ou que pretendem que o homem tenha vindo inteiramente formado de um outro mundo, carregado nas costas de um elefante alado.



Nisso não estamos, falta muito, no mesmo ponto com respeito à formação e, sobretudo, o povoamento da Terra; foi por isso que dissemos, em começando, que para nós a questão não estava suficientemente elucidada. Considerada do ponto de vista puramente científico, dissemos somente que, à primeira vista, a teoria da incrustação não nos parecia despida de fundamentos, e sem nos pronunciarmos nem pró nem contra, dissemos que nela encontramos material para exame. Com efeito, estudando-se os caracteres fisiológicos das diferentes raças humanas, não é possível atribuir-lhes uma estirpe comum, porque a raça negra não é um abastardamento da raça branca. Ora, adotando-se a letra do texto bíblico, que faz proceder todos os homens da família de Noé, 2400 anos antes da era cristã, seria necessário admitir não apenas que, em alguns séculos, só essa família teria povoado a Ásia, a Europa e a África, mas que se transformara em Negros. Sabemos muito bem que influência o clima e os hábitos podem exercer sobre a economia; um sol ardente avermelha a epiderme e amorena a pele, mas não se viu em nenhuma parte mesmo sobre o mais intenso ardor tropical, famílias brancas procriarem negros sem cruzamentos de raças. Portanto, para nós, é evidente que as raças primitivas da Terra provêm de estirpes diferentes. Qual é o seu princípio? Aí está a questão, e até provas certas não é permitido fazer, a esse respeito, conjecturas; aos sábios, pois, cabe ver aqueles que concordam melhor com os fatos constatados pela ciência.



Sem examinar como pôde fazer-se a junção e a soldadura de vários corpos planetários para deles formar o nosso globo atual, devemos reconhecer que a coisa não é impossível, e desde então se explicaria a presença simultânea de raças heterogêneas tão diferentes em costumes e linguagens, das quais cada globo teria trazido os germens ou os embriões; e, quem sabe mesmo, talvez indivíduos todos formados? Nessa hipótese a raça branca proveria de um mundo mais avançado do que aquele que houvesse trazido a raça negra. Em todos os casos, a junção não poderia se operar sem um cataclismo geral, o qual não deixaria subsistir alguns indivíduos. Assim, segundo essa teoria, nosso globo seria, ao mesmo tempo, muito antigo pelas suas partes constituintes, e muito novo pela sua aglomeração. Esse sistema, como se vê, não contradiz em nada os períodos geológicos que remontariam, assim, a uma época indeterminada e anterior à junção. Qualquer que ele seja, e o que diga dele o senhor Jobard, se as coisas se passaram assim, parece difícil que um tal acontecimento tenha se cumprido, e sobretudo que o equilíbrio, de semelhante caos, pudesse se estabelecer em seis dias de 24 horas. Os movimentos da matéria inerte estão submetidos a leis eternas que não podem ser derrogadas senão por milagres.



Resta-nos explicar o que se deve entender por alma da terra, porque não pode entrar no pensamento de ninguém atribuir uma vontade à matéria. Os Espíritos sempre disseram que certos dentre eles têm atribuições especiais; agentes e ministros de Deus, dirigem, segundo o grau de sua elevação, os fatos de ordem física, assim como aqueles de ordem moral. Do mesmo modo que alguns velam sobre os indivíduos, dos quais se constituem os gênios familiares ou protetores, outros tomam sob sua proteção as reuniões de indivíduos, os grupos, as cidades, os povos e mesmo os mundos. A alma da Terra deve, pois, ser entendida como Espíritos chamados, por sua missão, para dirigi-la e para fazê-la progredir, tendo sob suas ordens as inumeráveis legiões de Espíritos encarregados de velar pelo cumprimento dos seus desígnios. O Espírito diretor de um mundo, necessariamente, deve ser de uma ordem muito superior e tanto mais elevada quanto o próprio mundo seja mais avançado.



Se insistimos sobre vários pontos que puderam parecer estranhos ao nosso assunto, foi precisamente porque se trata de uma questão científica eminentemente controvertida. Importa que seja bem constatado por aqueles que julgam as coisas sem conhecê-las, que o Espiritismo está longe de ter por artigo de fé tudo o que vem do mundo invisível, e que assim não se apóia, como pretendem, sobre uma crença cega, mas sobre a razão. Se todos os seus partidários não guardam a mesma circunspecção, isso não é por falta da ciência, mas daqueles que não se dão ao trabalho de aprofundá-la; ora,não seria mais lógico julgá-la sobre o exagero de alguns, como não o seria condenar a religião sobre a opinião de alguns fanáticos.
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